O treinamento médico tradicional em nosso país e em diversos outros no mundo, invariavelmente é praticado durante contato com pacientes reais. Ao mesmo tempo que nos preocupamos com o treinamento, devemos também nos preocupar com o bem estar e a segurança destes pacientes, evitando interromper qualquer tipo de tratamento. Tratando-se de educação médica, este fato gera importantes conflitos éticos.
A Educação Médica Baseada em Simulação (EMBS) é uma metodologia de ensino relativamente nova e que pode contribuir para a solução deste tipo de problema, considerando que o treinamento prático de habilidades e atitudes é realizado com o auxílio de simuladores reais de pacientes (entre outras ferramentas), protegendo os pacientes de riscos desnecessários. Esta metodologia de ensino tem sido institucionalizada em diversas áreas, tais como a aviação, a indústria nuclear e a militar, que à semelhança da área médica, apresentam alto potencial de risco.
Alguns fatores como: altos custos, falta de efetiva comprovação científica da validade do método e resistências naturais à mudanças culturais, contribuiram para o atraso na introdução e disseminação da EMBS no Brasil. Recentemente, órgãos públicos responsáveis pela saúde e segurança dos pacientes nos Estados Unidos, criaram uma atmosfera mais receptiva para a expansão do uso de simuladores para treinamento na área de saúde a partir do relato de 1999 “First do no harm”, que descrevia dados inaceitáveis de danos causados a partir de erros médicos.
A Educação Médica Baseada em Simulação baseia-se em quatro importantes pilares éticos que norteiam o treinamento médico: padronização de práticas para treinamento e tratamento; treinamento realizado em ambiente seguro e controlado; o foco do treinamento é o treinando e não mais o paciente real; permitir o treinamento de habilidades comportamentais, tanto de indivíduos como de equipes.
O Centro de Treinamento Berkeley, no Rio de Janeiro, é pioneiro no uso desta metodologia de ensino no nosso país, ministrando diversos cursos na área de saúde há mais de 6 anos. O CTB funciona como um hospital robôtizado, comportando diversos ambientes (salas de simulação) à semelhança de um hospital real. Por estas salas, cerca de cinco mil alunos já foram treinados em diversos cursos na área de saúde, com ótimos resultados.
Finalmente, o treinamento médico deve sempre ser priorizado, assim como, a relação médico-paciente. No entanto, não podemos permitir que pacientes sejam colocados em risco para esta finalidade. A Educação Médica Baseada em Simulação juntamente com os simuladores reais de pacientes, apontam para uma nova perspectiva em termos de treinamento e segurança na área da saúde.
Dr. Sergio Gelbvaks
Coordenador de Simulação Médica